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O maior paradoxo humano. Consciência elevada, autoestima fragilizada.

Por Acharya Tadany.
Publicado no Diário de Santa Maria, 23 de abril 2026.

Você já ouviu uma pedra reclamando de sua forma? Ou uma montanha insatisfeita com sua altura? Já presenciou uma vaca angustiada por não se considerar bonita ou um leão sentindo-se inferior diante de outros animais? A resposta para todas estas perguntas é, naturalmente, não.

E por que isso acontece? Porque, na ordem natural das coisas, os animais simplesmente são o que são, não há conflito interno, não há comparação, não há rejeição de si mesmos. O que existe é uma plena aceitação ou, mais precisamente, a ausência completa de não-aceitação.

Em contraste, nós, seres humanos, parecemos ser os únicos, em todo o espectro da existência, dotados de uma mente capaz de criar complexos, sustentar preconceitos e cultivar uma profunda sensação de inadequação. E, ainda assim, nos consideramos os mais evoluídos. Tal afirmação, quando observada com honestidade, revela uma curiosa contradição.

Essa condição torna-se ainda mais evidente nos momentos de dificuldade, pois diante de desafios, de frustrações ou de dores, frequentemente projetamos ideais sobre o mundo ao nosso redor e pensamos como… “eu gostaria de ser aquele pássaro, tão livre”; “quem dera ser como a montanha, firme diante das adversidades”, ou “como a flor, que expressa sua beleza sem depender do reconhecimento de ninguém”, estes pensares são comuns em momentos adversos.

Essas comparações, embora poéticas, denunciam algo mais profundo, ou seja, um desconforto essencial com aquilo que somos.

Esse desconforto revela um fato inquietante, o nosso senso de inadequação pode ser tão intenso que, em determinados momentos, preferiríamos ser menos evoluídos, apenas para não sentir, não pensar, não nos afetar ou não nos esforçar para mudar certas realidades. É como se a complexidade da nossa própria consciência, em vez de ser reconhecida como um privilégio, fosse percebida como um fardo.

Além disso, essa mentalidade expõe um conflito silencioso, isto é, apesar de possuirmos uma sofisticada capacidade emocional, intelectual e espiritual, frequentemente nos vemos como insuficientes, que não somos satisfatoriamente bons, ou suficientemente capazes, ou razoavelmente inteligentes.

Como consequência, a vida segue adiante oscilando entre dois extremos polos, por um lado, o orgulho de nossa evolução e, por outro, o desejo de escapar dela quando a vida se torna demandante.

No entanto, é justamente aqui que reside a possibilidade de uma profunda transformação. O caminho evolutivo não é um movimento de regressão, nem uma permanência em um estado intermediário. Ele exige uma irrevogável visão, ou seja, não queremos ser menos, tampouco permanecer incompletos, pois o que verdadeiramente buscamos é a plenitude.

Então, quando essa compreensão amadurece, ocorre uma reorientação decisiva. A busca deixa de ser por fuga e passa a ser por entendimento. A mente, antes dispersa em comparações e conflitos, volta-se para o estudo, para a reflexão e para a assimilação de um conhecimento que revela algo essencial, a unidade e a totalidade intrínseca de nossas essências.

E, nesse lúcido e necessário reconhecimento, cessam as oscilações, pois o indivíduo deixa de girar no carrossel psicoemocional de inseguranças e projeções e passa a viver com maior estabilidade, coragem e autenticidade.

A evolução, então, deixa de ser uma ideia abstrata e torna-se uma realidade vivida, não como algo a ser alcançado no futuro, mas como algo a ser reconhecido no presente.

Talvez, portanto, a verdadeira medida de evolução não esteja na complexidade da nossa mente, mas na nossa capacidade de compreender e integrar quem realmente somos. E é nesse reconhecimento que reside o propósito mais profundo da existência humana.

Acharya Tadany

Photo by Annie Spratt on Unsplash

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