terça-feira , 10 março 2026
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Eu tinha certeza que era uma cobra.

Acharya Tadany
Histórias para refletir.
Pune, 8 de março de 2026.

Eu a vi. Juro que a vi.
Uma cobra enorme e aterrorizante.

Por um momento fiquei paralisado, congelado pelo choque. Todos os meus pensamentos desapareceram e até mesmo meu senso de identidade se dissolveu naqueles segundos que pareceram eternos. Eu nunca havia encontrado nada parecido antes. Não sabia como reagir, muito menos como agir. Então permaneci ali, tremendo, estremecendo, temendo o que poderia acontecer nos próximos segundos.

Lembranças da vida começaram a passar diante dos meus olhos, enquanto sinceramente sentia como se aquela fosse a última vez que eu as veria e, tal pensamento, apenas aprofundou ainda mais o meu terror.

No entanto, como que por graça divina, um pequeno feixe de sanidade surgiu das profundezas da minha alma. De repente, percebi que estava olhando firmemente para a cobra. Ela era tão bela e majestosa quanto assustadora. Ainda assim, meu olhar repousava sobre ela como uma folha que cai de uma árvore e flutua suavemente sobre a superfície tranquila de um lago.

E, quanto mais eu a observava, mais bela ela parecia e mais minha atenção se fixava nela.
Então percebi algo estranho.
Ela não se movia.
Não havia nenhum silvo.

Então a curiosidade começou lentamente a substituir o medo até que decidi tocá-la.
Estendi a mão e toquei.

Mas o que senti não foi a textura lisa e viva da pele de uma cobra. O que senti era seco, áspero, rude.
Confuso, toquei novamente.
Então, notei que não era uma cobra.
Era apenas um monte de cordas empilhadas.

Me dei conta de que eu havia sido iludido, distraído, desorientado.
Ainda assim, o medo que senti havia sido real. Eu estava genuinamente aterrorizado, paralisado por uma ilusão.

Mas, de repente, tudo mudou.
Um grande alívio tomou conta de minha essência.
Senti-me livre, calmo e relaxado.

Não havia nenhuma ameaça.
Nenhum perigo.
Nenhum risco.

O que restava era somente eu, sem medos imaginários, sem ameaças inventadas e sem perigos criados pela minha própria mente.

E ainda assim, meu amigo, por mais libertadora que aquela descoberta parecesse ser, ela me deixou diante de algo inesperado.

Um vazio insuportável.
Uma estranha desolação.
E uma perturbadora sensação de falta de sentido.

Talvez eu não tivesse perdido apenas o meu medo.
Talvez eu também tivesse perdido a ilusão que antes dava forma ao meu mundo.

Acharya Tadany

Photo by David Clode on Unsplash

Photo by Saskia van Manen on Unsplash

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