
Existem inúmeras abordagens possíveis, mas uma analogia simples e profundamente esclarecedora pode nos ajudar. As sobras de comida jogadas no lixo ontem não são utilizadas para preparar a refeição de hoje. Trata-se de um fato óbvio e cotidiano, mas que carrega uma lição poderosa.
Por Acharya Tadany Cargnin dos Santos.
Publicado no Diário de Santa Maria, 1 de janeiro de 2026.
O passado é, em essência, um ponto de referência. Ele não é um lugar onde vivemos, mas um território que atravessamos para chegar ao instante presente. Ainda assim, para muitas pessoas, o passado deixa de ser apenas memória e passa a se tornar morada, prisão ou fardo. A maneira como nos relacionamos com ele define, em grande medida, a qualidade da nossa vida atual.
De modo geral, seguimos dois caminhos distintos ao olhar para trás. Quando as lembranças evocam experiências felizes, conquistas ou momentos significativos, elas podem servir como fonte de inspiração, encorajando-nos a seguir adiante, a sonhar e a persistir. Nesse caso, o passado cumpre um papel saudável, isto é, ilumina o presente sem aprisioná-lo.
Por outro lado, quando a memória está associada a episódios dolorosos, frustrantes ou humilhantes, surge um desafio maior. Se não houver discernimento, tais lembranças tendem a se transformar em fantasmas recorrentes, que assombram o presente e minam qualquer desejo de mudança. A pessoa passa a reviver, repetidamente, aquilo que já terminou, como se o sofrimento fosse um destino inevitável.
Diante disso, uma pergunta se impõe de forma natural: como lidar com um passado que ainda dói?
Existem inúmeras abordagens possíveis, mas uma analogia simples e profundamente esclarecedora pode nos ajudar. As sobras de comida jogadas no lixo ontem não são utilizadas para preparar a refeição de hoje. Trata-se de um fato óbvio e cotidiano, mas que carrega uma lição poderosa.
Não recorremos ao que está deteriorado para nutrir o presente. Da mesma forma, não faz sentido buscar, em memórias pútridas, os ingredientes necessários para construir uma vida mais leve e saudável agora.
Essa analogia ilustra com clareza o que podemos chamar de uma limpeza psicoemocional. Para preservar o bem-estar no presente, é essencial evitar o uso de lembranças limitantes, dolorosas ou depreciativas como base para nossas decisões atuais.
O passado não pode ser alterado. Não podemos mudar o que aconteceu, nem as pessoas envolvidas, nem as consequências vividas. Insistir nisso é desperdiçar energia vital em uma batalha já encerrada.
Portanto, ressuscitar mágoas que só existem na memória não traz justiça, reparação ou crescimento. Traz apenas repetição. E essa repetição é uma escolha, ainda que inconsciente. Há coisas que somente cada indivíduo pode evitar, ou seja, alimentar ressentimentos, reviver culpas, perpetuar narrativas que já não servem mais.
Ao utilizar conscientemente essa analogia, a de não cozinhar o presente com restos do passado, inicia-se um genuíno processo de libertação interior. E assim, aos poucos, torna-se possível transcender crenças limitantes, condicionamentos antigos e memórias impostas ou autoimpostas que ainda nos mantêm presos.
Quando essa libertação acontece, algo sutil e profundo se revela. Um novo amanhecer surge no horizonte da vida. Com ele, despontam talentos adormecidos, potenciais esquecidos e uma energia criativa antes sufocada pelo peso do ontem. A pessoa passa a viver com mais presença, clareza e dignidade emocional.
Essencialmente, lidar com o passado não significa negá-lo, mas colocá-lo no seu devido lugar. Ele cumpriu seu papel. O agora, porém, exige ingredientes frescos. E somente no presente a vida pode, de fato, ser vivida.
Photo by Paul Skorupskas on Unsplash

Tadany Um refúgio para a alma e um convite à consciência.
