sábado , 26 setembro 2026
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Viajar é despir-se.

Por Acharya Tadany.
Publicado no Diário de Santa Maria, 24 de setembro de 2026.

Foto: Vaticano, Roma, Itália.

Viajar é retirar-se dos tecidos da rotina, dos véus da previsibilidade e do manto confortável da familiaridade. Para o peregrino, viajar é deixar para trás o ninho aquecido pelo hábito e aventurar-se no vento que sopra do imprevisível e do inesperado.

Viajar é como saltar de um palco onde ensaiamos todos os dias o mesmo papel, para entrar numa peça desconhecida, sem roteiro, sem direção, mas com a alma inteira entregue à improvisação da vida, ou seja, é sair do conhecido, do previsível e do aparentemente seguro, para aquilo que não conhecemos. Onde cada esquina é um novo mundo, cada olhar uma nova galáxia e cada vestimenta um universo à parte. Onde os sabores dançam com ritmos que nossos paladares ainda não conhecem, e as palavras, mesmo quando compreendidas, possuem entonações que contam histórias diferentes.

Viajar é atravessar espelhos onde as ruas são corredores de um outro tempo, as fachadas das casas, como páginas de um livro antigo, sussurram lendas que nossos olhos nunca leram. Os cheiros são notas de uma sinfonia que desafiam nossa memória. As arquiteturas falam outros símbolos, erguidas por mãos que adoravam outros deuses e celebravam outros mitos. E as pessoas, com seus gestos, hábitos e silêncios, revelam culturas que caminharam por trilhas paralelas às nossas.

E nós, o que acontece quando viajamos?

Somos estrangeiros de nós mesmos. Perdidos nesse novo mundo, sem saber como agir, nem reagir. Como folhas soltas no outono de outro continente. Como sementes que pousam em solos estranhos, mas que carregam dentro de si a promessa do florescimento.

No entanto, apesar da magia e beleza desta narrativa, em essência, nada é tão novo, pois assim chegamos à este planeta ao nascer. Vazios de certezas, mas repletos de sentidos em formação. Chegamos nus, não apenas de roupas, mas de referências. E mesmo assim, a vida, em toda sua bondade e grandeza, nos acolheu com sua estranheza.

Portanto, quando viajamos, o que realmente fazemos é nos reconectar com essa natural curiosidade de nossas essências, ou seja, aquele majestoso lugar onde fomos desconhecidos de tudo, mas ainda assim nos abrimos para o mundo com os olhos brilhando de fascínio, êxtase e encantamento.

Viajar, consequentemente, é renascer.

É permitir que o espanto nos visite novamente, como crianças encantadas com uma borboleta que pousa pela primeira vez em nossas mãos.

Nos encantamos com olhares que não entendemos, mas sentimos. Com gestos que não copiamos, mas respeitamos. Com estruturas que não construímos, mas admiramos como se fossem nossas.

Pois em sua essência, esse mundo que visitamos também nos representa por meio de outros corpos, de outras palavras e de outros tempos. Gente que, como nós, um dia também se sentiu despida, até mesmo no lugar onde viria a construir seus sonhos e suas próprias vidas.

Viajar é, portanto, recordar que somos eternos viajantes, mesmo quando estamos em casa.

É aceitar que o mundo não é algo que se possui, mas algo que se contempla. E que a verdadeira bagagem que carregamos é feita de espantos, descobertas e das infinitas formas de sermos humanos, fascinantemente humanos.

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One comment

  1. Lindo demais! E verdadeiro. Gratidão querido!

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