Por Acharya Tadany.
Publicado no Diário de Santa Maria, 13 de agosto de 2026.

…É claro que não controlamos tudo. Existem acontecimentos que não escolhemos, perdas que não conseguimos evitar e situações que escapam completamente à nossa vontade. Reconhecer isso é sinal de lucidez.
Mas uma coisa é aceitar aquilo que não podemos mudar; outra é desistir daquilo que ainda podemos transformar…
Ele estava sentado no meio de um parque, absorto pela beleza natural que o circundava. As árvores balançavam suavemente, os pássaros cantavam e, por alguns instantes, parecia que nada mais existia além daquele momento.
De repente, um senhor vestido de mago parou diante dele. – “Você quer saber sobre o seu futuro?”
O jovem levantou os olhos, curioso, e disse – “Sim”.
O mago permaneceu alguns segundos em silêncio, como se buscasse dentro de si uma resposta misteriosa. Então, abaixou-se e desenhou dois círculos separados no chão. Um deles era normal e o outro recebeu diversos riscos transversais.
Em seguida, tirou do bolso do seu manto um pequeno inseto, colocou-o entre os dois círculos e explicou:
– “Se o inseto entrar no círculo normal, seu futuro será inspirador, próspero e admirável. Mas, se ele for para o círculo com riscos, nuvens negras de sofrimento, dívidas e frustrações permearão a sua caminhada.”
Então, o mago soltou o inseto e, por alguns instantes, tudo parecia confirmar a previsão, pois o pequeno animal começou a rastejar em direção ao círculo normal.
Os olhos do jovem brilharam, um sorriso abriu-se em seu rosto, seu futuro parecia promissor.
Mas, quando o inseto estava chegando à borda do círculo, algo inesperado aconteceu. Ele parou, virou-se e, lentamente, começou a se afastar do círculo normal, aproximando-se daquele que, segundo o mago, representava sofrimento e frustração.
O brilho desapareceu dos olhos do jovem e o sorriso deu lugar à uma expressão de desânimo enquanto ele acompanhava, em silêncio, o pequeno animal, como se estivesse assistindo ao próprio futuro mudar diante de seus olhos.
Quando o inseto finalmente chegou à borda do círculo com riscos, o jovem não hesitou. Estendeu as mãos, pegou-o rápida e gentilmente e o colocou dentro do círculo normal.
O mago ficou indignado, – “quem você pensa que é para se intrometer no meu ritual?”
O jovem olhou para ele e respondeu tranquilamente:
– “Meu caro senhor, não posso ficar apenas assistindo ao meu destino ruir diante dos meus olhos, principalmente se posso fazer alguma coisa a respeito. Se tenho condições de agir e mudar o curso dos acontecimentos, por que deveria permanecer passivo? Afinal, o meu destino também está nas minhas mãos.”
O mago ficou em silêncio. O jovem então sorriu, levantou-se, fez um sinal de despedida e partiu.
Não sabia exatamente o que encontraria pela frente. Não possuía garantias de sucesso, prosperidade ou felicidade. Mas havia compreendido algo fundamental: não precisamos ser meros espectadores da própria existência.
Essa pequena história nos leva a uma questão importante: quanto do nosso futuro está determinado e quanto depende das nossas escolhas?
É muito fácil acreditar que somos vítimas das circunstâncias. Quando algo dá errado, podemos culpar o destino, a sorte, as pessoas ou as condições que nos cercam. Essa postura, embora confortável, pode nos transformar em espectadores da própria vida.
É claro que não controlamos tudo. Existem acontecimentos que não escolhemos, perdas que não conseguimos evitar e situações que escapam completamente à nossa vontade. Reconhecer isso é sinal de lucidez.
Mas uma coisa é aceitar aquilo que não podemos mudar; outra é desistir daquilo que ainda podemos transformar.
Não escolhemos todas as cartas que recebemos, mas podemos decidir como jogá-las. Não controlamos tudo o que acontece conosco, mas podemos escolher como responder ao que acontece.
O inseto representa as circunstâncias. O jovem representa a consciência que observa, compreende e age.
Talvez essa seja a verdadeira lição: não confundir circunstância com destino.
O futuro não é apenas aquilo que nos espera. É também aquilo que, dentro dos limites da realidade, ajudamos a construir.
Por isso, quando alguém disser que o nosso destino já está traçado, talvez devêssemos perguntar:
– E o que posso fazer a respeito?
Às vezes, a mudança que procuramos não começa com uma nova previsão sobre o futuro. Começa quando estendemos as mãos e decidimos agir.
Acharya Tadany
Photo by Daniele Franchi on Unsplash

Tadany Um refúgio para a alma e um convite à consciência.
