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Por que tanta gente conquista tudo e ainda se sente vazia?

Por Acharya Tadany.
Publicado no Diário de Santa Maria, 21 de maio de 2026.


Existe algo fascinante e profundamente humano que une todas as pessoas, independentemente da idade, da profissão, da cultura ou da condição financeira, pois, essencialmente, no fundo, todos nós estamos envolvidos num único grande projeto, isto é, tornar a própria existência feliz, segura e plena.

E, nesta caminhada, o adolescente acredita que encontrará isso quando for aceito pelo grupo. O jovem imagina que a felicidade virá com uma carreira promissora ou o relacionamento perfeito. O adulto deposita suas esperanças na estabilidade financeira, na construção da família ou no reconhecimento profissional. Já o idoso, muitas vezes, olha para trás tentando compreender se toda a longa caminhada realmente conduziu à tão desejada plenitude interior.

Em outras palavras, mudam os cenários, os personagens e as prioridades, mas o impulso permanece o mesmo: todos querem sentir-se completos e satisfeitos. Por trás da busca por dinheiro, status, viagens, relacionamentos, fama ou poder, existe um desejo silencioso por contentamento e, mesmo aqueles que buscam “uma vida simples” estão, na realidade, procurando tranquilidade emocional.

No entanto, existe um importante detalhe que raramente é questionado. Depois de anos, às vezes décadas, de esforço, quantas pessoas realmente conseguem afirmar, com sinceridade absoluta, que encontraram uma plena satisfação com sua existência?

Basta observar algumas situações corriqueiras da vida humana. Alguém passa vinte anos acreditando que será feliz quando finalmente comprar a casa própria. Compra. Durante alguns meses existe entusiasmo, orgulho, satisfação. Depois, surgem novas preocupações como pagamento do financiamento, manutenção, segurança, comparações com casas maiores ou melhores.

Outra pessoa acredita que a promoção profissional resolverá sua inquietação. A promoção chega, mas junto com ela aparecem mais pressão, mais ansiedade e novas metas.

Atualmente, nas redes sociais, milhões de pessoas perseguem reconhecimento, curtidas e validações onde, por alguns minutos, a aprovação produz prazer, mas logo depois, surge novamente a necessidade de mais atenção, de mais aprovação e de mais visibilidade.

Com estes exemples quero dizer que a mente humana parece funcionar como alguém tentando matar a sede bebendo água salgada, ou seja, quanto mais ela consome, mais dependente ela se torna da próxima experiência.

É exatamente nesse ponto que o Vedānta apresenta uma observação extremamente profunda e, ao mesmo tempo, desconfortável: “nada que seja temporário pode produzir permanente felicidade ou satisfação.

E por quê?

Porque tudo aquilo que conquistamos no mundo possui uma limitação inevitável: o tempo e o espaço.

Houve um tempo em que o objeto desejado não existia em nossa vida. Há um período em que ele existe. E inevitavelmente haverá um momento em que desaparecerá, mudará ou perderá significado.

Este princípio se aplica a posses, relacionamentos, juventude, beleza, saúde, prestígio e até mesmo para o próprio corpo.

Ou seja, tudo aquilo que é mutável não consegue oferecer estabilidade absoluta, pois o que é finito não consegue gerar uma sensação infinita de plenitude.

Tal compreensão não é pessimista, como alguns poderiam imaginar. Muito pelo contrário, ela é profundamente libertadora.

Isso porque, quando alguém percebe honestamente que nenhum objeto, conquista ou circunstância conseguirá resolver definitivamente sua inquietação existencial, nasce uma pergunta transformadora:

“Então, onde encontrarei aquilo que realmente procuro?”

E talvez seja justamente neste profundo momento que qualquer senda espiritual realmente tenha o seu princípio.
Não como um vazio ou mecânico ritual. Não como uma fuga psicológica. Não como uma superstição.

Mas como uma investigação lúcida sobre a natureza da felicidade, da consciência e da própria existência.

E, nestes questionamentos, o Vedānta afirma que aquilo que desperadamente buscamos por meio de conquistas externas talvez nunca tenha estado ausente dentro de nós. Que a paz, a alegria e a satisfação não é algo criado pelas circunstâncias ou relacionamentos, mas uma dimensão mais profunda da própria consciência, a qual, atualmente, é obscurecida por identificações, medos e infindas buscas.

Consequentemente, talvez o ponto mais importante da cognição humana não seja conquistar algo novo, mas compreender aquilo que é essencial, imutável e permanente.

E assim, talvez o dia em que alguém sinceramente pergunte “onde encontrarei uma felicidade que não dependa das intensas mudanças mundanas?”, seja exatamente o dia em que sua verdadeira jornada espiritual e existencial realmente inicie.

Acharya Tadany

Photo by Vitaly Gariev on Unsplash

One comment

  1. A luta de domar o Ego que tudo quer para deixar surgir o Eu Superior que é Deus em nós. Gratidão querido!

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